Comparados à maioria dos outros tipos de câncer, os ósseos são raros.
Mas existe um grupo de tumores, conhecidos como sarcomas, que além de afetarem os ossos aparecem nos tecidos mesenquimais, o que inclui gordura, cartilagem, músculos, vasos linfáticos e sanguíneos, além de outros elementos de suporte do seu organismo.
Os cientistas ainda não esclareceram totalmente a causa dos variados tipos de sarcoma. Nos principais subtipos, não há relação clara com hábitos de vida. Por outro lado, já foram identificados fatores associados à maior predisposição a eles, como alterações e síndromes genéticas.
Quando acometem os ossos, os sarcomas têm como característica dois picos de incidência: na infância e adolescência, e na idade avançada. Por serem consideradas doenças raras, o maior desafio das pessoas acometidas por elas é obter o rápido diagnóstico, medida que garante os melhores resultados terapêuticos.
Tumor benigno x maligno
Quando os médicos usam o termo “tumor ósseo”, eles não estão se referindo a uma única doença. Primeiro, é preciso separar os tumores benignos (mais frequentes) dos tumores malignos.
Dentre os malignos, os especialistas distinguem os tumores primários —que se manifestam no próprio osso— das metástases ósseas, que são cânceres originados em outro órgão, como mamas ou próstata, e se espalharam para o esqueleto. Daí serem chamados de tumores secundários. Na infância e na adolescência, o foco costuma ser os tumores primários.
Importante lembrar que nem todo sarcoma é um tumor ósseo. O termo também inclui tumores que surgem em músculos, gordura, cartilagem, tendões e outros tecidos. Os dois subtipos mais frequentes de tumores ósseos nos consultórios médicos:
- Osteossarcoma: é o tumor ósseo mais comum em crianças e adolescentes. Costuma surgir nos ossos longos, especialmente perto do joelho e do ombro, e está associado ao período de crescimento acelerado da adolescência;
- Sarcoma de Ewing: é o segundo principal tumor ósseo nessa faixa etária e pode acometer não apenas os ossos longos, mas também a pelve, as costelas e outras regiões do esqueleto.
“Importante lembrar que mesmo o sarcoma ósseo também pode apresentar metástases, principalmente para os pulmões e, em alguns subtipos, para outros ossos ou locais”, esclarece Sima Ferman, chefe da Seção de Oncologia Pediátrica do Inca.
Dá para identificar sintomas?
Tanto no osteossarcoma quanto no sarcoma de Ewing, a manifestação mais comum é a dor óssea persistente. Apesar disso, os especialistas consultados garantem que a grande maioria das dores ósseas em crianças e adolescentes não é câncer.
Para diferenciar uma coisa da outra, o sinal de alerta é a persistência da dor. Ela costuma estar presente por semanas ou meses e, em vez de melhorar, tende a tornar-se contínua e intensa com o passar do tempo. Além disso, podem ser observadas as seguintes manifestações:
- Inchaço progressivo
- Massa palpável
- Vermelhidão local
- Dificuldade para caminhar e até mancar (a depender da região afetada)
Atenção: a ausência de febre ou de mal-estar geral não exclui a doença. Em muitos casos, o único sintoma é a dor local.
O que você pode fazer
Ao observar a persistência dos sintomas, a sugestão dos especialistas é procurar por ajuda médica. A avaliação pode ser feita por um pediatra, médico de família ou um ortopedista, a depender da principal manifestação, da idade do paciente e a acessibilidade a esses especialistas.
- O médico ouvirá a queixa da criança, levantará sua história de saúde e fará o exame físico. Exames como radiografia, ressonância magnética ou tomografia podem ser solicitados.
A suspeita de sarcoma na radiografia já justifica o encaminhamento do paciente para um centro de referência, e é melhor que exames complexos, como ressonância e biópsia, sejam feitos nesses serviços. A explicação é de Edgard Eduard Engel, professor associado da FMRP-USP.
- Biópsia é o procedimento que retira fragmento de tecido ou de células para exame em laboratório.
- O procedimento ajuda a confirmar o diagnóstico e orientar a terapia adequada.
Alternativas terapêuticas
Não existe uma terapia única que sirva para todos os casos porque as estratégias de tratamento precisam focar no tipo de tumor e no estágio da doença — dados que são fornecidos pela biópsia.
“O tratamento passa necessariamente pelo uso de agentes quimioterápicos, muito frequentemente por uma cirurgia e, em alguns casos, radioterapia”, esclarece Mariana Bohns Michalowski, presidente da Sobope.
- Por vezes, a cirurgia não é o primeiro passo. Um exemplo é o sarcoma de Ewing, que é sensível à radioterapia. A depender de determinadas condições, a intervenção cirúrgica poderá ser substituída por essa modalidade terapêutica.
O que esperar do tratamento
A resposta às estratégias terapêuticas dependerá das seguintes condições:
- Subtipo do sarcoma
- Tamanho e localização do tumor
- Remoção completa
- Presença ou não de metástase
- Características moleculares do tumor
- Resposta individual às terapias indicadas
A depender de todas essas situações e, sobretudo, do tempo do diagnóstico e da ausência de disseminação da enfermidade, muitos pacientes serão tratados com intenção curativa.
Possíveis complicações
Os especialistas consultados afirmam que as complicações podem estar relacionadas à própria doença e ao tratamento.
- Dor, limitação funcional, fraturas ou comprometimento da estrutura óssea, compressão ou invasão para regiões próximas, metástases, efeitos adversos da quimioterapia, complicações cirúrgicas, alterações funcionais ou ortopédicas pós-operatórias são exemplos.
- Em crianças e adolescentes, determinados tratamentos podem impactar o crescimento, desenvolvimento, função física e até fertilidade a longo prazo.
O valor dos centros de referência
Por serem tumores raros e complexos, os sarcomas exigem cuidado e acompanhamento que nem sempre estão disponíveis em serviços gerais de saúde.
- Diagnóstico preciso, biópsia e a definição do tratamento devem, sempre que possível, ser conduzidos por equipes especializadas compostas por oncologistas, ortopedistas, radiologistas, patologistas, radioterapeutas, fisioterapeutas, entre outros.
- Esse tipo de atendimento é oferecido por unidades de saúde chamadas centros de referência, disponíveis nas redes públicas ou privadas, em diferentes regiões do país.
“Centros especializados focam nessas doenças raras, e os profissionais acabam ganhando maior experiência. Já está provado: ser tratado nesses locais garante melhor sobrevida para o paciente”, afirma Fernando Augusto Batista Campos, do Centro de Referência em Sarcomas e Tumores Ósseos do A. C. Camargo Cancer Center.
FONTES: Edgard Eduard Engel, professor associado da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo), responsável pelo Ambulatório de Oncologia Ortopédica do Hospital das Clínicas da mesma instituição e ex-presidente da ABOO (Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica); Fernando Augusto Batista Campos, vice-líder do Centro de Referência em Sarcomas e Tumores Ósseos do A. C. Camargo Cancer Center; Mariana Bohns Michalowski, professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e presidente da SOBOPE (Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica); Sima Ferman, chefe da Seção de Oncologia Pediátrica do INCA (Instituto Nacional de Câncer).
